Crônicas

Crepúsculo da bruxa

A chuva forte não convidava a sair. Em outros tempos era o momento de dar uma ajeitadinha no visual, montar na vassoura e voar pelo mundo.

Agora não. A vassoura está ali mas a confiança em subir nela desapareceu. Ou melhor, está adormecida. Não é de hoje que ela duvida se ainda sabe mexer com os poderes que a tornaram notória. No fundo ela acha que ainda conseguiria dar umas voltinhas sentindo o vento nos cabelos. Mas na dúvida prefere não arriscar. E no embalo, não tem muito tempo cortou os cabelos bem curtinhos.

Se ajeitou no sofá examinando a chuva que caía forte. Da janela via a encosta verde, pulsando de vida com as águas límpidas do céu que balançam os galhos das árvores e lavam as vidraças de sua casa. Suspira, resignada.

Já tinha sido curandeira. Mas isso fora em outra vida, como se dizia. Há muito não exercia os poderes de cura, só muito eventualmente em casos especiais. Tinha receio de errar a poção ou não saber mais recitar os encantamentos corretos. Pelo sim, pelo não recomendava as pessoas que a procuravam que buscassem outra colega feiticeira.

Os dotes adivinhatórios ainda existiam mas ela não estava tão segura se ainda eram precisos. Vez ou outra achava que conseguia entender o que se passava na cabeça das pessoas, adivinhando suas intenções e desejos. Qual nada.

Nos tempos atuais as imagens surgiam borradas em sua mente e mais confundiam do que esclareciam. Isso explicava suas últimas trapalhadas no campo pessoal. Confiara demais na interpretação do que achava que tinha visto nas brumas.

O resultado tinha sido o oposto do que desejara. Onde esperava presença, veio indiferença. Onde esperava proximidade, veio afastamento. Onde esperava afeto, percebeu decepção com toques de mágoa silenciosa.

Em princípio, por seu temperamento, achara que a culpa estava nos outros. Mas depois de repetidos tropeços, decidira admitir que talvez fosse alguma falha sua. E depois de muito negar o óbvio rendeu-se as evidências. Seu crepúsculo como bruxa chegara.

Feiticeiras mais experientes e antigas nas artes ocultas haviam advertido que poderes mágicos não são eternos. Eles somem mais rápido na proporção do descaso que a bruxa tem com eles. A arrogância e a soberba da feiticeira que acha que seus poderes são eternos costumam acelerar o contrário, escutara certa vez. Ao que parecia, era essa sua situação.

Não havia mais como remediar.

Os encantamentos recitados em outros tempos ficaram para trás. Agora as palavras eram usadas por ela somente como esconderijo. Usava e abusava de vocabulário rebuscado criando barreiras entre si e o mundo. Gerava cortina de fumaça e sua imagem ficava algo difusa, protegendo-se.

Ali sozinha em seu sofá, sem coragem de subir na vassoura e contemplando a chuva, chegou a conclusão que se isolara do mundo voluntariamente. E sem olhares capazes de perscrutar sua alma, suspirou resignada. E disse para si mesma que já era hora de voltar ao mundo dos vivos.

Arqueou o corpo, fez força para levantar mas..voltou a se sentar. Tivera uma ligeira tontura e em meio a névoa que surgiu diante dos seus olhos veio um rosto do passado recente. Um rosto afastado dela por ela. Piscou os olhos tentando fixar a imagem que rapidamente desaparecia diante de si.

Acomodada novamente no sofá ela sorriu. Aquela visão trouxe a sensação de esperança que há muito não sentia. De que ele, afinal, não seria um caso perdido em sua vida. Sorriu novamente, olhou a vassoura e passou a considerar tentar voar. Nem que fosse para subir só até as nuvens e espiar lá de cima o que ele estava fazendo…

Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

Um comentário

  1. Ahhh amei essa crônica!! Uma baita reflexão ! Parabéns ao Escritor pelo profundidade desse texto. E obrigada pelo presente !!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar